Notas para debater a crise da Venezuela, por João Pedro
Stedile
Defender soberania na Venezuela é defender autodeterminação
dos povos contra o império dos EUA, afirma dirigente do MST
22 de fevereiro dJoão Pedro Stedile, membro da coordenação
nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), escreve alguns
apontamentos para ajudar a entender a crise geopolítica na Venezuela e a
ofensiva dos Estados Unidos para desestabilizar o projeto bolivariano.
:: O que está acontecendo na Venezuela? ::
1. Há uma crise internacional do modo de produção
capitalista que vem se aprofundando desde 2008. A hegemonia do capital
financeiro estabelece que apenas as grandes corporações e os bancos acumulem;
ao contrário disso, as economias dos países se mantêm à margem e as populações,
em especial os trabalhadores, pagam com mais desemprego, aumento da
desigualdade, migrações, conflitos sociais e perda de direitos, além da
diminuição dos serviços públicos básicos de educação, saúde, moradia, etc.
2. Com a eclosão da crise econômica, os governos construídos
em pactos de conciliação de classe e estabilidade política não conseguem mais
se sustentar, porque o Estado e suas finanças se transformam em disputa das
classes.
3. Há também uma crise da chamada democracia formal
burguesa. As eleições e seus governos não conseguem mais representar os
interesses reais da maioria da sociedade, porque suas vitórias são
fraudulentas, manipuladas e custeadas a base de milhões. Dessa maneira, como
reflexo dessa crise, a população não acredita mais nos políticos e no regime de
representação formal.
4. Diante desse contexto internacional, o capital dominante,
por meio das corporações e bancos, volta-se prioritariamente para a apropriação
privada dos recursos da natureza: petróleo, minérios, água, árvores,
biodiversidade e energia, como forma de obter altas taxas de lucro e,
proveniente dessa renda extraordinária, voltar a acumular e a crescer. No
entanto, nem todos os capitalistas: apenas aqueles que se apropriarem dos bens
da natureza, que eram comuns, que não foram produzidos pelo trabalho e, ao se
transformarem em mercadorias, adquirem um preço com uma renda fantástica.
5. Na disputa internacional por mercados e bens naturais,
desenhou-se uma nova correlação de forças entre os Estados Unidos, a Europa
Ocidental, a Eurásia (Rússia, Irã, China). Essas economias disputam entre si a
apropriação de bens da natureza e os mercados. Isso levou a que os capitalistas
dos EUA aumentassem suas pressões sobre a América Latina, para mantê-la como
território refém de seus interesses, seu "pátio traseiro", como
costumam nos chamar, e, assim, têm acesso a bens e mercados e se contrapõem em
melhores condições frente a seus concorrentes internacionais.
6. No mundo da política e da ideologia, as crises fizeram
emergir no mundo todo novas forças burguesas de ultradireita. Essas forças
reacionárias se constroem ideologicamente com novos inimigos: os migrantes, os
direitos dos trabalhadores, os costumes, a cultura, etc.
7. Infelizmente essas forças de ultradireita conquistaram,
pelo voto, alguns governos, como o governo Donald Trump nos Estados Unidos;
Itália, Hungria e Andaluzia na Europa; e na Índia e nas Filipinas na Ásia. Aqui
na América Latina, conquistaram os governos de Argentina, Brasil, Paraguai,
Chile, Peru e El Salvador.
8. Para vencer as eleições, as forças de ultradireita não
expõem seus projetos e concepções ideológicas, porque sabem que não há apoio da
maioria da população, então passam a manipular a opinião pública, com o uso
intensivo da internet, da produção de mentiras sistematicamente contra a
esquerda e os setores progressistas. Ainda se utilizam das igrejas pentecostais
para iludir as populações mais pobres que delas são dependentes.
9. Tudo isso aconteceu também na crise da década de 1930,
quando os capitalistas se utilizaram do discurso nacionalista e das ideias
fascistas para controlar os governos e saírem da crise. E se utilizaram das
guerras mundiais para disputar mercado e eliminar meios de produção com o custo
de milhões de vidas humanas.
10. É neste contexto que se pode entender as derrotas de
governos progressistas na América Latina, que atuavam em conciliação de classes
e, embora não se tratasse de nenhum governo revolucionário, foram desalojados
pelas burguesias com quem estavam aliados.
11. Assim, precisamos analisar a ofensiva política,
ideológica e agora militar do capital dos Estados Unidos sobre a Venezuela para
controlar de forma privada e internacional suas reservas de petróleo. A
Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo e as mais próximas do
mercado americano. Nenhum outro país ou território do mundo poderia garantir e
ampliar o acesso a petróleo para os Estados Unidos.
12. Além do quê, todos os analistas preveem, por tudo isso,
que os preços do petróleo devem voltar a margens superiores a cem dólares ao
barril nos próximos dois anos, chegando já a 70 dólares o barril no final de
2019. Isso permitirá, para quem controlar as reservas, uma fantástica renda
petroleira.
13. O povo da Venezuela está enfrentando essa guerra há
vinte anose, agora, aproxima-se uma nova etapa, que pode se transformar em um
conflito militar.
14. Nesses anos desde que Hugo Chávez ganhou as eleições em
1998 e tomou posse em 1999, há um cenário permanente de ataque dos capitalistas
venezuelanos e internacionais ao processo de mudança econômica e social na
Venezuela. Poderiam até admitir um militar governando a Venezuela, como tantos
fizeram na América Latina, porém não admitiram nunca que o petróleo passasse a
ser utilizado como um bem fundamental para a reestruturação da economia
venezuelana, para financiar a distribuição de renda e a solução dos problemas
estruturais da população: moradia, saúde, educação, transporte público e
infraestrutura social.
15. Nesses anos todos, os capitalistas do norte e o governo
estadunidense aplicaram toda sua experiência histórica que haviam utilizado em
outros países para tentar derrubar o governo e o processo bolivariano em curso.
16. Primeiro, tentaram construir um governo de composição de
classe com Chávez, propondo políticas econômicas neoliberais. Indicaram
ministros e um presidente do Banco Central. Não funcionou. Chávez respondeu com
a convocação de uma Assembleia Constituinte e a redação de uma nova
Constituição, que devolveu ao povo, e não aos partidos conservadores, a
soberania do poder politico e dos destinos da nação.
17. Depois, apelaram para um golpe de Estado clássico, como
fizeram em tantos países. Sequestraram o presidente Hugo Chávez do Palácio
Miraflores, colocaram em seu lugar um empresário de presidente. Diante desse
fato, o povo deu a resposta, cercou o palácio e, em 48 horas, o golpe foi
derrotado pelo povo e por um grupo importante de cadetes e novos militares que
entraram no serviço militar com uma formação bolivariana. Esse momento é de
muita importância, pois marca a união cívico-militar desse novo momento que
será fator de grande importância no desenvolvimento da revolução bolivariana, já
que parte do alto mando das forcas armadas estava apoiando o golpe, por suas
relações históricas com a oligarquia local.
18. Os empresários que ainda estavam na empresa petroleira
PDVSAcomandaram uma greve geral petroleira, paralisando todas as atividades e
provocando o caos no país, causando um clima de desestabilidade social. O
governo consegue, junto com os trabalhadores, reverter esse processo e promover
uma grande renovação na estrutura da empresa, reorganizando o comando entre o
governo e os trabalhadores.
19. Aplicaram, então, a tática chilena. Especulação com
certos produtos para gerar pânico na população, esconder produtos que iam desde
farinha até medicamentos ou bens com muito apelo popular, como papel higiênico,
açúcar, leite, café e pasta de dente. O governo usou as reservas de petróleo
para compras estatais e distribuição desses bens básicos para a população.
20. Passaram, então, para a tática ucraniana, do terrorismo
público nas ruas com a prática das guarimbas, em que jovens pequeno-burgueses
ou lúmpens, pagos em dólar, bloqueavam rodovias, queimavam locais simbólicos,
jogavam bombas incendiárias em escolas infantis, hospitais e até bases
militares, etc. Mais uma vez, não funcionou, e o povo enfrentou o terrorismo e
derrotou as guarimbas.
21. Tentaram subverter e ganhar oficiais das forças armadas
para seu projeto, compraram alguns, mas não conseguiram o levantamento e a
divisão militar. Mesmo porque todos os militares que eles conseguiram comprar
estão fora da Venezuela, o que significa dizer sem base de influência concreta.
22. Acusaram sistematicamente o governo venezuelano de ser
ditador, tanto Chávez quanto agora também Maduro. No entanto, a oposição
participou de 25 eleições, em vinte anos elegeram diversos governadores,
prefeitos e deputados, fazem comícios em praça pública e controlam a maior
parte dos meios de comunicação de massa. Como justificar que se trata de uma
ditadura? Em nenhum país ocidental há condições semelhantes. Por outro lado, o
processo eleitoral, com urnas eletrônicas e comprovante impresso se transformou
no processo mais transparente existente comprovado por diversas fundações dos
Estados Unidos que fiscalizaram as últimas eleições.
23. Nos últimos meses, intensificaram o bloqueio econômico
para evitar que cheguem mercadorias do exterior - sendo uma economia
petroleira, a Venezuela ainda é muito dependente de bens produzidos no
exterior. E mais do que tudo, operam abertamente com a manipulação do câmbio na
cotação do dólar com o bolívar, desde um portal inexplicável instalado em
Miami. Sintomaticamente, a burguesia local, toma como referência esse portal,
sem nenhuma base econômica real para especular com o dólar, que agora virou
mais que uma moeda, virou uma mercadoria. Porém uma mercadoria que é referência
para todas as demais.
24. Impulsaram uma campanha de estímulo e motivação para que
milhares de pessoas saíssem do país com promessas de emprego e futuro risonho.
Mais de 30% dos que saíram já retornaram ao país desiludidos, recebendo apoio
do governo para retornarem. Ainda que a migração não seja um problema de
venezuelanos, já que vivem no país mais de 5 milhões de colombianos, milhares
de haitianos e também milhares de europeus que chegaram no boom do petróleo da
década de 1970, como espanhóis, italianos, portugueses e também libaneses.
25. A tese de exigir novas eleições não tem paralelo na
história das democracias burguesas modernas. Só porque a direita perdeu as
eleições para Maduro, fiscalizadas por centenas de autoridades de todo mundo,
então deve-se convocar novas eleições? Por quê? Não há base legal e moral para
destituir um governo legítimo como foi eleito. Ou a mesma tese poderia se
aplicar contra Bolsonaro, Macri? E sobre os mesmos deputados da Assembleia
Nacional que quer destituir Maduro, foram eleitos pelo mesmo sistema.
26. Agora, entramos na etapa derradeira. O governo de Trump,
encurtando-se, tem ainda menos de dois anos e deve perder as próximas eleições.
O preço do petróleo tende a subir e, com a necessidade ideológica de barrar os
governos progressistas e de esquerda, eles precisam derrubar Maduro. Como disse
Trump: "primeiro vamos derrubar o governo Maduro, depois virá Cuba,
Nicarágua", etc.
27. Antes de iniciar a fase de maior ofensiva externa, o
governo Trump tentou criar as condições internas de desestabilização econômica
e política, nomeando Guaidó, desconhecido das forças políticas do país e,
inclusive, não representativo das forças burguesas de oposição, como sendo o
novo governo legítimo. Ou seja, trataram de dar um golpe constitucional, porém
ilegal. Repetindo a fórmula utilizada contra o presidente [Fernando] Lugo [do
Paraguai], contra o presidente [Manuel] Zelaya [de Honduras] e contra a
presidenta Dilma [Rousseff].
28. E essa nova etapa pode chegar a uma invasão militar.
Criaram um governo fantoche, que nem sequer é conhecido no país, totalmente à
margem de qualquer eleição ou legalidade. E agora, bastaria aumentar o cerco, a
pressão internacional e, quem sabe, uma intervenção cirúrgica
29. Porém essa tática derradeira depende de muitas
variáveis. A sociedade americana não aceitaria perder seus soldados numa guerra
injustificável, e então teriam que usar forças da OEA [Organização dos Estados
Americanos]. Mas, na OEA, fizeram apenas 16 dos 34 votos. E não tiveram maioria
nem autorização para uma invasão legalizada pela OEA. Tentaram no Conselho de
Segurança da ONU [Organização das Nações Unidas], que também lhes negou direito
para invadir a Venezuela, com os bloqueios da Rússia, China e outros países.
Sobrariam as forças armadas da Colômbia e do Brasil, e não parece ser fácil sua
adesão, com consequências para a política interna e a disposição política das
forças armadas destes países.
30. A última tática seria, então, uma intervenção militar
cirúrgica, por aviação, como fizeram na Iugoslávia, Ucrânia, Líbia e Síria,
para quebrar a sustentação econômica do governo e forçar a derrubada. Mas antes
de uma intervenção militar, eles precisariam ainda romper com o elo de unidade
existente na Venezuela entre as forças armadas bolivarianas e a maioria do
povo. Essa unidade derrotará qualquer intervenção militar, causando um alto
custo de vidas humanas e também político ao governo Trump.
31. Essa aventura militar poderia se transformar num
conflito bélico internacional com a provável solidariedade da Rússia, do Irã e
da Turquia, transformando a Venezuela numa Síria latino-americana, com
desfechos improváveis e altos custos aos norte-americanos, como de fato está
acontecendo na Síria.
32. Ainda como consequência dessa intervenção militar, uma
grave contradição para as forças imperialistas: com uma provável derrota das
forças direitistas invasoras, os Estados Unidos teriam então que receber uma
nova e grande migração de toda burguesia venezuelana, que, numa derrota
militar, não teria mais espaço político e social no país, como aconteceu depois
da derrota militar da invasão na Baía dos Porcos, em Cuba.
33. As próximas semanas e os próximos meses serão decisivos
para o desfecho de qual tática os americanos adotarão. Naquele território,
estamos travando a batalha da luta de classes mundial, que poderá demarcar a
geopolítica para todo o século 21, assim como foi simbólica a Guerra Civil
Espanhola para os desdobramentos numa Segunda Guerra Mundial.
34. De parte do governo venezuelano, será necessário, nesta
batalha, manter a unidade das forças armadas bolivarianas e manter a maioria do
povo chavista mobilizado na defesa da pátria. No curto e médio prazo,
desenvolver um novo programa econômico, que logre superar os enormes desafios
impostos pelo bloqueio ocidental e pela dependência do petróleo para
desenvolver um novo programa de desenvolvimento econômico com igualdade social
35. Hoje, a defesa da soberania na Venezuela significa a
defesa da autodeterminação dos povos contra o império. Precisamos estar ativos
e bem-informados das movimentações. Os próximos passos serão decisivos, e todas
as forças populares e de esquerda, do continente e do mundo devemos
manifestarmos claramente em defesa do processo bolivariano - que tem suas
contradições e desafios, que são próprios de todo processo de mudanças
estruturais numa sociedade.
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