Mina do Sossego
não dá tranquilidade a povoado
Reportagem
especial: O Liberal
P Moradores da Vila Bom Jesus, na zona
rural de Canaã dos Carajás, não dormem mais direito. Eles temem um acidente na
Mina do Sossego, da Vale, distante aproximadamente seis quilômetros daquela
comunidade. Eles contam que a Vale usa explosivos para a extração de cobre. E
que essas explosões causaram rachaduras em várias casas da vila, onde moram 600
famílias – o equivalente a mais de mil pessoas. “Explode lá e treme aqui”,
disse a dona de casa Danierika Barbosa, mostrando as rachaduras nas paredes de
sua casa, que fica na avenida Sossego.
Ela contou
que, no dia do acidente em Brumadinho, uma funcionária da Vale foi à vila e
conversou com os moradores. “Ela disse para a gente que a mina é segura. Se
fosse segura, por que colocaram sirene há um mês?”, questionou. A sirene serve
para alertar os moradores em caso de um acidente.ublicado em: 04/02/2019
Danierika disse que acorda toda
noite chorando, pensando em seus três filhos. A mais nova tem apenas três meses
de vida. “Ninguém dorme mais. Posso ter que sair correndo de casa, porque não
tem hora para explodir. Lá em Brumadinho foi às 12 horas. E se isso acontecer à
noite, como fica?”, disse. “Só não me mudei porque não tenho para onde ir. Para
eles, o que vale é o minério, não é a vida”
O marido
dela, Isaque Barbosa dos Santos, é presidente da Associação dos Moradores da
Vila Bom Jesus. “A gente vive em insegurança. Não sabe se (um acidente) pode
acontecer à noite, um horário que dificulta mais”, disse Isaque. “Como vai se
pensar em construir um futuro com a sua família em um lugar desses?”,
completou.
Seu
Francisco Adriano de Oliveira, de 68 anos, mora na vila desde 1986 – há 33
anos. “A gente não dorme mais, assombrado”, disse. “Nós estamos correndo risco.
A comunidade se sente acuada”. Ao falar sobre a proximidade da vila com a mina,
seu Francisco afirmou: “Estamos encostados em uma bomba. Ou nós ficamos ou ela
(Vale) sai. Prefiro que ela saia”. Ele lembrou que a vila existe antes da mina.
REUNIÃO
Na
terça-feira passada, apreensivos com a tragédia ocorrida em Brumadinho, o
presidente da associação dos moradores e membros da comunidade fizeram uma
reunião, da qual também participaram três vereadores. Com medo, muitos
moradores não querem mais morar na vila. A reunião ocorreu na quadra do
colégio, que ficou lotada, com mais de 200 pessoas.
Isaque
Barbosa informou que vai encaminhar um ofício à Vale, para que a empresa
compareça a uma reunião no próximo dia 6, naquela comunidade. Tema: o “risco
que a barragem de rejeito oferece aos moradores da Vila Bom Jesus”, informou.
BRUMADINHO
VIROU PESADELO
“A pessoa
morrer assim de graça é muito ruim. Tem que esperar Deus vir buscar. Mas não
morrer assim, tampado debaixo de lama”, disse José João Pereira, de 71 anos.
Ele, a esposa, Maria de Fátima Oliveira, de 69 anos, e o filho, de 29, mora a
pouco mais de um quilômetro da Mina do Sossego. “A gente fica preocupado com
esse tipo de coisa. Morrer de graça não presta. O senhor acha que presta?”, o completou
que é mais conhecido como Zezinho.
Maria de
Fátima afirma que não está segura morando às proximidades da Mina do Sossego
Morando na zona rural de Canaã
dos Carajás há mais de dois anos, ele afirmou que, agora, pensa em deixar o
local. “Quero sair por causa desse problema”, disse. “A gente fica preocupado.
O senhor não ficaria preocupado se estivesse no meu lugar? Morrer debaixo do
lameiro, atolado”.
Dona Maria
disse que não tem dormido direito e quer sair daquele local. Ela reclama que só
Deus, e não um acidente ambiental, pode tirar a vida das pessoas. “A vida da
gente só quem resolve é Deus”, disse. “Se acontecer alguma coisa, não dá tempo
de correr”. Dona Maria também falou sobre as explosões na mina. “É um papoco
para lá. Quebrando não sei se é pedra. Ninguém sabe o que é. É só zuada.
Estremece a casa. Fico assustada”, afirmou. O casal não têm televisão em casa e
está sem rádio, que, disse dona Maria, “desmantelou”. Mas eles souberam do
crime ambiental quando estiveram na sede de Canaã dos Carajás e assistiram ao
noticiário nos telejornais. “Fiquei tão preocupada que mandei meu velho vender
as coisas aqui, as galinhas, para a gente ir embora. A gente não quer perder a
vida assim”, disse dona Maria.
HISTÓRICO
Segundo o
site da empresa Vale, “o início da produção Mina do Sossego, em 2004, marcou a
entrada da Vale no mercado mundial de cobre e ajudou a transformá-la em uma das
maiores empresas de mineração diversificada do planeta.” “Sossego é a primeira
mina de cobre da Vale e contribui de forma significativa para o desenvolvimento
de Canaã dos Carajás”.
Desde 2004,
a mineradora já investiu cerca de R$ 200 milhões em obras de infraestrutura e
ações para o desenvolvimento econômico e social do município, que melhoraram os
serviços nas áreas de saúde, educação, esporte, cultura, segurança pública,
saneamento básico e transporte. “Todo esse investimento foi realizado em
parceria com a prefeitura.”
O MEDO É
CONSTANTE
“O povo não
tem informação e nem preparação para reagir aos possíveis danos de um acidente
em uma barragem, diz Iuri Paulino Bezerra, membro da coordenação nacional do
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)”. “A população vive sem condição
de, minimamente, organizar uma defesa de suas vidas, suas comunidades, seus
bens”.
Na avaliação
do MAB, a segurança de barragens é um direito que tem sido negado às populações
atingidas. “Nós não temos a oportunidade de debater, discutir os riscos que uma
barragem pode causar à região onde ela está instalada – seja barragem de
rejeitos de mineração ou para usinas hidrelétricas”, disse Iury Paulino.
Ao ser
implantada, a barragem muda todo o território. E a população passa a conviver
com uma nova realidade. “E sem conhecer os riscos, que são constantes e que,
muitas vezes, aparecem mais quando causam grandes tragédias, como em Mariana e,
agora, em
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