"Privatização
está por trás do rompimento das barragens", diz coordenadora do MAB.
Militante do
MAB avalia que milhões de pessoas serão afetadas pela contaminação com resíduos
da mineração
Quatro de
fevereiro de 2019 12h35
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Hohn lembra o descaso das
mineradoras com os atingidos pela barragem do Fundão, em Mariana (MG) / José
Eduardo Bernardes
Por Leonardo
Fernandes e Katarine Flor
Do Brasil de
Fato
Daiane Hohn,
da coordenação nacional do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB),
participou do último programa No Jardim da Políticapara avaliar as causas e
desdobramentos do rompimento da barragem da mineradora Vale em Brumadinho (MG).
Nos estúdios
da rádio Brasil de Fato, Hohn ressaltou que moradores de diversas outros
municípios, além de Brumadinho, serão atingidos, já que a lama tóxica deve
atingir outras 19 cidades ao longo do rio Paraopeba e as comunidades banhadas
pelo rio São Francisco também podem sofrer com a contaminação.
A
entrevistada avalia que a privatização da Vale é um dos principais fatores que
explica o rompimento da barragem. "A Vale foi privatizada em 1997, foi
entregue para a iniciativa privada que busca o lucro máximo em detrimento do
meio ambiente e das pessoas. Se precisar, vai intensificar a exploração do meio
ambiente para garantir os lucros", afirmou Hohn.
Leia a
entrevista completa:
Depois do
rompimento da barragem em Mariana, a Vale prometeu ao país e ao mundo que
aquilo não iria acontecer novamente. No entanto, agora vemos o rompimento da
barragem em Brumadinho com mais de 100 pessoas mortas e mais de 200
desaparecidas. Qual sua análise?
Além de
todas essas pessoas que já foram identificadas, sabemos que a lista tende a
aumentar. O número de desaparecidos, na nossa avaliação, ainda é maior do que
este. Muitas famílias não vão conseguir enterrar seus mortos. Além disso, a
lama vai passar pelo rio Paraopeba, atingindo mais 19 municípios, e vai chegar
até Três Marias, na divisa com a bacia do rio São Francisco.
Essa lama
vai impactar ainda aproximadamente um milhão de pessoas em Minas Gerais. Sem
falar em 18 milhões de pessoas que moram nos 500 municípios da bacia do rio São
Francisco que provavelmente serão contaminados com os resíduos da mineração. A
expectativa é que a lama seja contida na barragem de Retiro Baixo, mas a
contaminação desse rejeito provavelmente vai atingir mais pessoas. Como o que
aconteceu no caso de Mariana: a água contaminada chegou ao Espírito Santo e
chegou ao oceano. Nos preocupa a contaminação de toda essa bacia. É um crime
grandioso, porque afeta milhões e milhões de pessoas na bacia do rio São
Francisco. O Brasil é atingido pelo rompimento da barragem em Brumadinho, não
só Minas Gerais.
Você deu a
perspectiva do tamanho da tragédia e do número de pessoas que ainda serão
atingidas. Sobre a questão da indenização, como foi para os atingidos em
Mariana e qual a perspectiva para os atingidos em Brumadinho?
Em
Brumadinho, precisamos do afastamento imediato da Vale. Afinal, é a criminosa
lidando com o crime. Não podemos deixar que a empresa esteja na cena do crime,
porque em Mariana eles cadastraram as pessoas, formularam um acordo, criaram
uma fundação para gerenciar recurso, pensaram quais ações reparatórias seriam
dadas, de forma individual, de forma isolada – eles e parte do governo, não
houve participação popular e os atingidos não participaram em momento algum das
decisões sobre os rumos de suas vidas.
Em virtude
disso, três anos depois da lama, nós temos Bento Rodrigues, Paracatu de Baixo e
várias outras comunidades que ainda não foram reconstruídas. A negação dos
direitos continua. Em virtude do que já aconteceu em Mariana, de como a empresa
trata os atingidos, nós estamos dizendo: a Vale não pode estar em Brumadinho
neste momento, não pode querer assumir a tarefa de cadastrar as pessoas.
Esta semana
conseguimos fazer uma reunião, e foi uma vitória dos atingidos de Brumadinho,
com o Ministério Público estadual e com a defensoria pública, porque eles
[Vale] estavam fazendo cadastro dos atingidos por meio de uma empresa chamada
Sinergia. O que os atingidos estão dizendo é que não pode ser feito um cadastro,
porque neste momento as pessoas não têm condições emocionais de dizer o que
perderam, não conseguem ainda dimensionar. Então, o que conseguimos fazer foi
afastar a Vale e a Sinergia deste processo.
Está sendo
construído um formulário emergencial para que, minimamente, haja uma lista de
quais são as famílias atingidas, porque ainda estamos tentando entender quem
são, quantas são, o que tinham. Tudo muito superficial ainda, para que daqui
uns dias de fato se possa construir esse cadastro em elaboração coletiva com os
atingidos e se identifique o que foram essas perdas, sob vários aspectos,
ambiental, social, de renda, enfim. Por isso nós insistimos para que o
formulário seja feito por uma empresa pública, que o Estado faça esse cadastramento
O número de
pessoas atingidas pode crescer, certo? As pessoas que vivem ao longo do rio
Paraopeba e do rio São Francisco, caso os rejeitos cheguem até lá, também entrariam
no cadastro de atingidos?
É neste
sentido que buscamos a política nacional dos atingidos por barragens, para
ampliar e poder contabilizar tudo o que é levado em consideração quando uma
localidade é atingida. Não necessariamente pela lama, mas pela renda, por
exemplo. Muitos pescadores na bacia do Rio Doce foram atingidos depois [do rompimento
da barragem do Fundão, em Mariana] e até hoje estão com a renda comprometida.
Muitas comunidades indígenas, após a lama passar, sentiram os impactos. Então, comunidades inteiras de ribeirinhos e
de pescadores, no Espírito Santo, perceberam o impacto depois de muito tempo. É
neste sentido que pensamos a política de atendimento das populações atingidas
pelo rompimento da barragem em Brumadinho. Não pode ser a empresa determinando
quem é ou não é atingido.
As
reparações ainda estão longe de serem feitas com os atingidos em Mariana e
acontece este novo caso em Brumadinho. O que está por trás do rompimento dessas
barragens?
Acreditamos
que o que está por trás do rompimento da barragem em Mariana e em Brumadinho é
a privatização. A Vale foi privatizada em 1997, foi entregue para a iniciativa
privada que busca o lucro incessante em detrimento do meio ambiente e das
pessoas. Se precisar intensificar a exploração do meio ambiente para garantir
os lucros, vai ser feito. O que aconteceu em Brumadinho tem essa causa de
fundo, isso aconteceu pelo modelo de privatização da empresa
A falta de
fiscalização dos órgãos competentes – seja a secretaria estadual, seja o
governo federal – é consequência deste modelo de mineração. De acordo com o
relatório da ANA [Agência Nacional de Águas], existem 24 mil barragens no
Brasil e só 3% são fiscalizadas. E mais do que isso, 45 dessas barragens estão
com problema, estão em alto risco de rompimento. Brumadinho nem estava nesta
lista.
Isso
significa que tem uma deficiência nesta lista, não dá para confiar nela. O
banco de informações que alimenta a ANA vem das próprias empresas que repassam
as informações que lhes interessam. Não são os órgãos públicos que fazem essa
fiscalização. Em parte sim, mas quem também acaba fazendo são as próprias
empresas.
A população
não é avisada do que está acontecendo. Não existe plano de alerta ou de
evacuação desta população. Não temos informação atualizada da quantidade de
pessoas que vivem em torno destes projetos. Não tem plano de resgate destas
vítimas. Temos centenas de mortos e desaparecidos em Brumadinho. Quantos
poderiam ser salvos se tivesse um plano de resgate dessas vítimas?
Não tem
política de reparação de quem já perdeu. Mariana não tem política de reparação,
os atingidos por barragens no Brasil não tem política de reparação, e
Brumadinho, infelizmente, vai ser mais um caso. Se a sociedade não cobrar, nós
não vamos ter política de reparação aos atingidos e vamos ver recorrentemente o
que está acontecendo.
Você falou
sobre a questão do lucro das empresas e apontou a privatização como problema.
Nós estamos em um momento em que se anuncia uma série de privatizações, com
mais empresas privadas cuidando de bens públicos. Como você avalia essas
perspectivas de privatização e esses desastres que estão acontecendo?
Essa é uma
grande preocupação: como lidar com a ganância das empresas que querem explorar
sem cuidar das pessoas e do meio ambiente. É mais barato indenizar as famílias
do que reestruturar as instalações das barragens para que se adequem à padrões
de segurança atuais. Um grupo dos atingidos esteve com a [procuradora-geral da
República] Raquel Dodge cobrando para que mudanças estruturais sejam feitas
diante do que aconteceu em Brumadinho. Uma das questões que se apresentava para
Dodge é a mudança do modelo de mineração.
Não pode
continuar do jeito que está. Essa tecnologia está obsoleta e precisamos
desativar as barragens que estão à montante de populações. Por outro lado, a
Vale tem que ser responsabilizada. O Estado não tem que puxar para si uma
responsabilidade que não é sua, é uma responsabilidade exclusiva da Vale. A
Vale tem que reparar os atingidos. Que essa mediação seja feita e que os
atingidos e a sociedade civil estejam acompanhando as decisões permanentemente.
A participação dos atingidos em todo o processo e a sociedade junto, definindo
essas grandes políticas, é fundamental para evitar a repetição de crimes desta
natureza.
Quais as
consequências dessa lama tóxica para a saúde da população de Mariana e também,
agora, para a população de Brumadinho?
Vemos com
muita preocupação a questão da saúde dos atingidos de Brumadinho e dos
municípios da bacia do rio São Francisco em virtude do que aconteceu em
Mariana. O que temos visto é que a empresa se nega a reconhecer que casos de
saúde, de alergia, de problemas estomacais e problemas emocionais, como
depressão, sejam causados pelo rompimento da barragem em Mariana.
Inclusive
foi feita uma pesquisa no ano passado, ainda com pequena amostra em Mariana,
que revelou altos índices de lama no organismo das pessoas, até nas crianças.
Algumas dessas pessoas vieram até São Paulo para fazer exames e diagnosticar
que tipos de elementos químicos constam em seu corpo. Mas a empresa se negou o
tempo todo a pagar os custos desses exames e, inclusive, disse que não era
verdade que o que estava sendo levantado pelos profissionais da Rede de Médicas
e Médicos Populares, que acompanharam o caso, e dos médicos que estavam
atendendo.
Estamos
preocupados com o que vai acontecer na vida dos atingidos pela contaminação da
água, dos resíduos, da lama, dos alimentos, dos peixes, enfim, é uma série e
vasta possibilidade de contaminação que está colocada hoje para o Brasil. São
Paulo, por exemplo, é alimentado pelas frutas e pelo pescado do rio São
Francisco. Quem está em São Paulo também é atingido pelo rompimento da barragem
em Brumadinho. A população brasileira é atingida por mais este crime e temos
que responsabilizar os acionistas e a empresa para que isto não volte a
acontecer.
Como você
avalia essa disputa de narrativa com a Vale querendo emplacar que foi um
"acidente" e falando em "doações" para as famílias
atingidas?
A Vale está
preocupada com sua reputação pública, sua imagem diante dos investidores, por
isso vai dizer que foi acidente e não vai se responsabilizar. A tarefa da sociedade
brasileira é a reafirmação que isso tem sim um responsável: é a empresa Vale. É
nessa perspectiva que a sociedade precisa cobrar do Estado por leis que tragam
justiça e cuidem do meio ambiente e das pessoas.
Estamos
construindo uma rede de solidariedade em Brumadinho com distintas organizações
que estão ajudando as famílias neste momento difícil. Desde a busca dos corpos,
a identificação, o apoio psicossocial
das famílias que estão fortemente abaladas, garantindo que possam participar
para poder escolher e definir os rumos do seu futuro e das próximas gerações.
Por isso, o Movimento dos Atingidos por Barragens está lá, mas contamos com uma
rede enorme de solidariedade e precisamos continuar contando. Já temos uma
imensidão de pessoas e organizações que se colocam à disposição para contribuir
de diversas formas em Brumadinho e vamos precisar por um longo período. O que
aconteceu em Mariana nos dá esse legado: três anos de luta, de lama e de
impunidade
No decorrer
dos dias, a tendência é que a sociedade esqueça o que está acontecendo e por
isso precisamos estar juntos, construindo essa rede de solidariedade, para
cobrar dos responsáveis, para evitar novos crimes desta natureza que tendem a
acontecer se não mudar a forma como é aplicada a mineração e as barragens no
Brasil.
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