Barragem do
Gelado já aumentou três vezes
Reportagem
especial: O Liberal
Ele reside a
500 metros da barragem do Gelado, da Vale. O lavrador mora na Área de Proteção
Ambiental (APA) do Gelado, distante 50 quilômetros de Parauapebas, sudeste
paraense. Na APA, há uma das maiores barragens da mineradora no Estado. Lá,
vivem 123 famílias com permissão do governo feder O lavrador mora com a esposa,
Diosanta Vieira dos Santos, de 68 anos, e a neta, de 16. Seus oito filhos
residem em Parauapebas, distante 70 km de Canaã. “Não durmo bem à noite. Fico
com medo de acontecer comigo o que aconteceu com aquele pessoal lá (em
Brumadinho), que, até hoje, não tiraram os corpos”, contou. “Se acontecer (o
rompimento da barragem), sou o primeiro (a ser atingido), pois estou a 500
metros da barragem. A barragem quebrando, vem todinho até aqui”, afirmou.al
para morar e cultivar a terra.do em: 04/02/2019 “Se acontecer (o rompimento da estrutura), sou o
primeiro (a ser atingido), pois estou a 500 metros da barragem”, lamenta
Gervásio Gomes “Tenho
aqui galinha, gado, cavalo. E o mais interessante: a minha vida, da minha esposa
e da minha neta”, disse.
Mais
conhecido como Dério, um apelido de juventude, ele contou que a vida era
tranquila em seu sítio. Isso até a tragédia em Brumadinho. “Até sexta-feira,
gostava de morar aqui. Comprei essa terra baratinho. Agora, estou apreensivo e
preocupado demais”, disse. Antes, ele acordava às seis da manhã e ia cuidar da
roça. “Antes de Mariana, não ficava preocupado. Achava que barragem era
segura”, disse. Sobre o acidente em Brumadinho, ele comentou: “Seus filhos
querem que eles deixem o sítio e sigam para morar em Parauapebas. Na
quinta-feira, 31 de janeiro, o lavrador recebeu mensagem de um irmão que mora
perto de Marabá. “Ele disse para eu ficar veaco, que poderia acontecer comigo o
que aconteceu com eles lá”, disse.
Ele lembrou
que só era mata quando chegou à área. E que só deixará sua propriedade se a
Vale indenizá-lo. Seu Dério disse que a barragem chegou primeiro que ele. Mas
que, desde então, a empresa já aumentou esse empreendimento três vezes.
ALERTA NA
BARRAGEM DO GELADO
Sirenes são
instaladas em pontos estratégicos. Em novembro do ano passado a comunidade
participou da simulação de um acidente, realizada pela Vale. Os moradores
receberam informações sobre como agir quando a sirene fosse acionada. No mesmo
mês, a Vale instalou sirenes na APA do Gelado, com o objetivo de alertar a comunidade
em caso de emergências.
“TODOS OS
VIZINHOS ESTÃO PREOCUPADOS”
Na manhã de
quinta-feira, 31 de janeiro, a reportagem encontrou o produtor rural Raimundo
Nonato de Souza, de 67 anos tomando banho e lavando roupas em uma nascente em
sua propriedade, na Área de Proteção Ambiental (APA) do Gelado. Uma convivência
tranquila com a natureza. Ele mora nessa área há 25 anos. E, na terra, planta
mandioca, feijão, pupunha e açaí. A produção é vendida, aos sábados, na feira
do produtor, em Parauapebas.
Ele contou
que as pessoas viviam tranquilas. Mas que isso mudou após o acidente em
Mariana, há três anos. “Depois de Mariana, começou a dar um medozinho”, disse.
A apreensão aumentou bastante com a tragédia em Brumadinho. “Agora, ficamos
mais preocupados. Moro a um quilômetro da barragem. Todos os meus vizinhos
estão preocupados”.
“Quando
atinge um, a gente não fica satisfeito. É vida, né? A gente fica preocupado com
os acidentes que estão ocorrendo”, afirmou Raimundo Nonato. “E outra: dinheiro
não paga vida. Você vê em Brumadinho o tanto de gente que tem debaixo da terra
e juntando urubu por cima, porque não tem mais condição de tirar (os corpos)”.
Raimundo
disse que sua terra é “muito boa” e que ele já está “estruturado”. E
acrescentou: “Tenho tudo aqui. Não quero sair. Só se a Vale me indenizar. Não
posso largar o que é meu”. Ele contou que, depois do acidente em Mariana, há
três anos, há sirenes instaladas em vários pontos da APA do Gelado. Mas, para
Raimundo, os moradores, em caso de acidente, deveriam ser avisados com bastante
antecedência. “Se avisar 15 minutos antes, só dá tempo de pegar o calção.
Imagina se for à noite”, disse ele, que é pai de dez filhos.Fiquei com pena.
Correu água do olho. E olha que não tenho parentes lá”. Raimundo Nonato de Sousa mora na APA
do Gelado há 25 anos e diz que a apreensão dos moradores do lugar aumentou
bastante depois do episódio de Brumadinho (Akira Onuma / O Liberal)
Se a sirene
tocar, os moradores devem ir para uma parte mais alta. “E se não der tempo de
chegar lá?”, questionou. Seu Raimundo disse que, perto dele, moram cinco
famílias – todos parentes entre si. Segundo os moradores, há dois caminhos para
chegar à APA. Um deles é controlado pela Vale, pois fica na propriedade da
empresa. No outro, que a mineradora construiu há uns oito anos para o acesso
dos moradores, percorre-se um trecho no asfalto. E, depois, por estradas
vicinais de chão batido. No total, em torno de uma hora e meia de carro saindo
de Parauapebas
VALE
ESCLARECE QUESTÕES SOBRE EMPREENDIMENTOS
Em nota
enviada à redação, a Vale informa que “as barragens estão em conformidade não
apenas com a legislação ambiental brasileira, mas, seguem, também os mais altos
padrões internacionais de segurança. No Estado do Pará, todas as barragens da
Vale têm modelo de construção diferente da barragem da Mina Córrego Feijão, em
Brumadinho.” “Nenhuma barragem da Vale no Pará tem categoria de risco alto. A
barragem do Sossego e da Apa do Gelado são classificadas de baixo risco,
conforme norma da Agência Nacional de Mineração (ANM).”
“São
realizados monitoramentos e inspeções periódicas em todas as estruturas que se
enquadram na Política Nacional de Segurança de Barragens. A empresa montou
ainda um grupo de trabalho que apresentará um plano para elevar o padrão de segurança
das barragens da empresa. O objetivo é superar os parâmetros mais rigorosos
existentes hoje no Brasil e no mundo. Essa semana, a empresa anunciou o
descomissionamento de todas as suas barragens a montante mesmo modelo da mina
em Brumadinho, todas em Minas Gerais.”
“A Vale
reforça que tem uma equipe dedicada ao relacionamento com as comunidades
situadas no entorno de suas operações e vem reunindo, por meio de Comitês,
buscando manter o diálogo contínuo com os moradores.” “Conforme cadastrado no
Sistema de Gestão Integrado de Barragens, a barragem do Gelado tem volume atual
de 110,4 milhões m³ e começou a operar, em 1986”, informa a Vale, ao ressaltar
que nunca houve rompimento da barragem em questão e que as normas de segurança
seguem a Portaria DNPM 70.389/2017.
Sobre a Mina
do Sossego, a Vale “esclarece que a atividade de detonação ocorre obedecendo
todos os parâmetros técnicos e normas que regulamentam a atividade, para que
não haja riscos como rachaduras, garantindo a segurança da comunidade nas proximidades.
A empresa informa ainda que mantém um Comitê com a comunidade da Vila Bom Jesus
com reuniões periódicas e diálogo permanente”.


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