A crise
venezuelana caminha para a ruptura
O artigo do
cie A situação política
na Venezuela é daquelas que não permitem um impasse prolongado. Não há
condições de sustentação para um quadro de dupla legitimidade ou dupla
soberania do poder. A Venezuela tem um presidente eleito, Nicolás Maduro, e uma
Assembleia Nacional igualmente eleita, cujo presidente, Juan Guaidó,
autoproclamou-se presidente interino da República, com o compromisso de
promover eleições livres. A legitimidade de Maduro é discutível. As lideranças
dos principais partidos do país estavam na prisão. As prisões foram arbitrárias
e as condenações de alguns deles, sem provas e por motivação exclusivamente
política. Leopoldo López, líder do partido de Guaidó, o Voluntad Popular, foi
condenado a 14 anos de prisão por alegada incitação à violência. Maduro é um
ditador que manipula as instituições democráticas para que funcionem sempre a
seu favor. É como um jogador de dados viciados. Joga o jogo de azar, mas com
instrumentos calibrados para ganhar. A legitimidade de Guaidó assenta-se no
voto e no inegável apoio de grande parte da população. Mas, não tinha mandato
legítimo para autoproclamar-se presidente interino. O mandato admissível de
Guaidó seria, com o apoio da maioria dos parlamentares, convocar novas
eleições.
As eleições
que reelegeram Maduro foram convocadas pela Assembleia Nacional Constituinte,
um órgão sem legitimidade, criado por decreto presidencial e composto por
aliados seus, para sobrepor-se à Assembleia Nacional, que é o parlamento
constitucional da Venezuela. A convocação de eleições, anulando a que elegeu
Maduro, tem justificativa constitucional e democrática. A abstenção chegou a
52%. Sua competitividade foi comprometida pela prisão dos líderes da oposição
de maior prestígio e popularidade. A censura e a intimidação à imprensa
reduziram o espaço para o debate público das divergências. Há evidências de
manipulação eleitoral usando os programas sociais.
A atitude de
Guaidó produziu um momento político crítico. Momentos políticos são aqueles que
levam inexoravelmente à ruptura do statu quo. Não há como Maduro possa
simplesmente sufocar a oposição e retornar à situação anterior à atitude de
Guaidó. Todas as opções a seu alcance mudam significativamente o quadro
político venezuelano. Se reprimir ainda mais, fechar a Assembleia com o uso das
forças armadas, e prender Guaidó, aprofundará o caráter ditatorial de seu
governo e será isolado internacionalmente.
O apoio
incondicional à presidência de Guaidó pela direita internacional liderada por
Donald Trump, acompanhado pelos presidentes dos países da América do Sul, com
destaque para Jair Bolsonaro, à exceção do boliviano, Evo Morales, é um
problema para que assuma o papel de agente da redemocratização venezuelana.
Gera a desconfiança de que se trata de uma manobra das forças de extrema
direita contra um governo de esquerda e não uma ação de forças democráticas
plurais buscando o pleno restabelecimento da democracia pluralista e
competitiva na Venezuela. Porém o espectro de forças a condenar Maduro está se
ampliando e ficando mais plural.
A União
Europeia adotou posição cautelosa, de defesa de uma saída negociada e
democrática. Na ONU, o veto de Rússia e China ao pedido do governo Trump de
reconhecimento da presidência de Guaidó pelo Conselho de Segurança, provocou um
impasse que não reduziu, porém, a pressão por uma solução negociada. A
declaração do governante espanhol, Pedro Sánchez, cujo governo se assenta em
uma coalizão de centro-esquerda, de que reconhecerá Guaidó como presidente
interino se Maduro não convocar eleições livres em oito dias foi seguida pelos
governos de Portugal, também de centro-esquerda, do Reino Unido e Alemanha e da
França, de centro-direita. Este ultimato não só aprofunda o isolamento
venezuelano, como leva a um encurtamento do prazo para busca de uma saída
negociada. É um fator novo que os militares venezuelanos terão que levar em
consideração. A esquerda latino-americana errou novamente. Ao manter apoio
injustificável à ditadura Maduro, para confrontar a direita que apóia Guaidó,
empurra as forças sociais para a direita.
A Venezuela
está profundamente dividida. Na base social, imperam a fome e o desespero,
diante de uma crise econômica brutal, com desabastecimento, uma hiperinflação
incalculável. A julgar pelas manifestações populares, Maduro já perdeu a
maioria. Conta agora apenas com os militantes bolivarianos. Na elite, o tímido
apoio da cúpula militar a Maduro é um indicador de divisão nas forças armadas
nacionais. O reconhecimento de Guaidó como presidente interino pelo adido
militar venezuelano em Washington, coronel José Luiz da Silva, pode indicar que
a média oficialidade afasta-se dos generais. Principalmente do ministro da Defesa,
Vladimir Padrino López, o “padrinho” castrense de Maduro. A politóloga
venezuelana Rocío San Miguel que estuda os militares e a política em seu país,
considera que a situação militar está em fluxo e as forças armadas podem
redefinir seu posicionamento nos próximos dias, principalmente diante do isolamento
internacional crescente.
O mundo está
confuso neste interregno que vivemos e é grande a confusão na Venezuela e sobre
a Venezuela. Só uma coisa é certa, o sofrimento avassalador do povo venezuelano,
que não tem encontrado socorro nem na democracia, nem na ditadura.
* Sérgio
Abranches é cientista político, escritor e comentarista da CBN. É colaborador
do blog com análises do cenário político internacional
Ntista
político Sérgio Abranches para o blog neste domingo
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