Chico Mendes
inspira luta pela biodiversidade e direito à vida
Reafirmamos
o legado e a memória de luta desse caboclo amazônico, que cedo compreendeu seu
papel diante da vida, da luta pela preservação da floresta e por condições mais
dignas aos sujeitos que nela vivem22 de dezembro de 2018 17h54.
Neste sábado
(22) completam-se trinta anos do assassinato de Chico Mendes. Em alusão a essa
data se realizaram muitas homenagens e formas de reafirmar o legado e a memória
de luta desse caboclo amazônico, que cedo compreendeu seu papel diante da vida,
da luta pela preservação da floresta e por condições mais dignas aos sujeitos
que nela vivem e reproduzem sua existência.
Essa atitude
diante da vida permitiu o meu encontro com Chico Mendes. O ano era 1989, quando
acompanhei sem compreender a decisão de que a partir daquela data minha escola
se denominaria “Chico Mendes”, em substituição ao nome do general Euclides
Figueiredo. Até aí sem grandes significados a não serem pelas mudanças
estruturais na escola pública que se encheu de embelezamento os olhos da menina
estudante.
Os letreiros
da Escola Municipal Chico Mendes vieram acompanhados de uma nova pintura em
branco, com traços de um verde intenso que tão harmoniosamente se fundiu ao
verde da imensa sumaúma que crescia majestosamente no pátio da escola, ao som
das vozes e brincadeiras das crianças, meninos e meninas dos bairros
periféricos de uma pequena cidade Amazônia.
Anos mais
tarde, na militância política dos movimentos sociais compreendi o significado
daquele nome e conheci o legado de Chico Mendes. E um imenso orgulho se pôs em
meu coração. As caminhadas pela floresta forjaram um Chico Mendes
ambientalista, sindicalista e político que com a consciência de classe, se
colocou a serviço dos povos da floresta.
Como afirmou
o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva “Ele – Chico Mendes -, acabou
juntando numa só bandeira a luta ecológica, a luta sindical e a luta
partidária”. O legado desses Chico Mendes múltiplo que buscamos resgatar.
O ativismo
político de Chico Mendes nos remete a um período de profundas transformações do
espaço agrário amazônico, transformado a partir dos anos de 1960 em uma nova
fronteira de expansão do Capital. Os governos militares em aliança com o
capital privado consolidaram uma lógica desenvolvimentista de mercantilização
da terra e dos bens da natureza e de confronto contra os povos da floresta.
Deixando um rastro de destruição da biodiversidade e de assassinatos de
trabalhadores e trabalhadoras da Amazônia.
Esse
contexto permitiu com que Chico Mendes compreendesse que a luta em defesa da
floresta era a luta em defesa dos sujeitos da floresta. Seu esforço foi fazer
com que indígenas, quilombolas, ribeirinhos, pescadores, camponeses e
extrativistas se unissem para enfrentar inimigos que atuavam articuladamente
como madeireiros, latifundiários, mineradoras, petroleiras e corporações
transnacionais de biotecnologia, estes a serviço do grande capital. A
consciência coletiva adquirida através dos anos possibilitou a criação dos
sindicatos dos trabalhadores rurais e posteriormente o Conselho Nacional das Populações
Extrativistas (CNS).
A partir
desses instrumentos Chico Mendes e seus companheiros e companheiras
empreenderam as mais variadas formas de luta e resistência na região amazônica.
Da tática do “empate” para enfrentar a grilagem e o desmatamento das florestas,
à luta pelo direito a educação do campo, organizando a primeira escola de
formação denominada “Wilson Pinheiro”, em homenagem ao companheiro sindicalista
assassinado em 1980.
Porém o
principal papel exercido por Chico Mendes foi de internacionalizar a luta dos
povos da floresta, escancarando aos olhos do mundo as dificuldades que estes
sujeitos guardiões da biodiversidade enfrentavam para terem seus direitos
efetivados. Chico Mendes foi longe, questionou com firmeza os financiadores dos
projetos do capital na Amazônia. Suas reflexões e a prática militante
resultaram em vários reconhecimentos como o Prêmio Global Quinhentos, de
Preservação Ambiental das Nações Unidas e a Medalha da Sociedade para um mundo
melhor em Nova York.
Justamente,
por ter ido tão longe, Chico Mendes foi silenciado – sendo assassinado no dia
22 de dezembro de 1988, no quintal de sua casa, em Xapuri (Acre).
Ao longo dos
anos as disputas se intensificaram. As pessoas continuaram sendo assassinadas,
os territórios destruídos e a causa ambiental e social sendo paulatinamente
deslegitimada pelos interesses privados. Não bastasse, as recentes declarações
e nomeações do novo governo de Bolsonaro acenam para um quadro que tende a se
agudizar e contra esse estado de coisas devemos ficar atentos e resistentes.
No entanto,
não pretendo encerrar com o pessimismo do tempo presente. Reivindico e
compartilho o Chico Mendes irmão da solidariedade e da utopia, que apostava no
poder transformador da juventude. A eles dedicou o seguinte bilhete “Atenção
jovem do futuro! 06 de setembro do ano de 2120, aniversário do primeiro
centenário da revolução socialista mundial, que unificou todos os povos do
planeta, num só ideal e num só pensamento de unidade socialista e que pôs fim a
todos os inimigos da nova sociedade. Aqui fica somente a lembrança de um triste
passado de dor, sofrimento e morte. Desculpem. Eu estava sonhando quando
escrevi estes acontecimentos, que eu mesmo não verei, mas tenho o prazer de ter
sonhado...”.
Se
pudéssemos responder, diríamos camarada Chico Mendes siga em paz, nos
inspirando sempre! Aqui seguiremos como guardiões da biodiversidade, dos
direitos e da vida, construindo no dia a dia, do tempo presente a sociedade do
futuro!
*Dirigente
nacional do MST do Pará.

Nenhum comentário:
Postar um comentário