
Irmão fala com irmã por telefone apMais um final feliz no
caso de pessoas desaparecidas. Nesta terça-feira (7), finalmente os irmãos José
Basílio de Mesquita Neto, 38, e Gizelia da Conceição de Mesquita, 48, se
falaram por telefone, após mais de 29 anos sem contato, com direito a videochamada,
choro e muita emoção. Ele, morador do Bairro dos Minérios, em Parauapebas (PA).
E ela, residente na Vila Nova dos Baianos, no município de Humaitá (AM).
Eles estiveram juntos pessoalmente pela última vez há mais
de 29 anos em Vargem Grande (MA), quando o Basílio tinha apenas 9 anos de
idade. Depois, a Gizelia foi embora para Porto Velho (RO) e de lá foi para
Humaitá. Há 17 anos, quando a Gizelia ficou sabendo da morte da mãe dela dela,
dona Maria Domingas da Conceicão de Mesquita, chegou a falar – por telefone –
com outro irmão, o Samuel, para saber da triste notícia. A partir daí, perdeu o
contato com a família. O pai deles, Milton Carmo Coelho de Mesquita, havia
morrido um ano antes do falecimento da esposa.
Todos nasceram em Vargem Grande (MA), mas foram criados em
Chapadinha, onde alguns dos irmãos do Basílio e da Gizelia moram até hoje:
Gizelda, Gizamar, Milton e Solange. O Samuel, o mais novo, mora em Parauapebas
há mais de 20 anos e há 10 anos convidou o irmão Basílio para vir morar na
Capital do Minério. Hoje, o Basílio trabalha como vigilante a noite e durante
dia como ambulante vendendo bolos, tortas e geladinho. O Basílio é casado com a
ajudante de cozinha Railene Bezerra Lima. O casal não tem filhos, mas cada um
tem dois filhos de relacionamentos anteriores. O Basílio é pai da Janiele e da
Sara. E a Railene é mãe da Raíssa e do Raílsson Lima.
“Operação telefônica”
Para os dois se falarem foi montada toda uma verdadeira
“operação telefônica”. É que na vila em que a Gizélia mora, na beira do Rio
Madeira, não pega celular e nem internet. Aí, ela teve que viajar uma hora de
barco até a Ilha da Meditação para poder usar o único aparelho celular da vila
e em local específico em uma área alta do distrito. O aparelho é do motorista
de transporte escolar, Raimundo Marques de Freitas, mais conhecido pelo apelido
de “Karalhinho”, que colaborou bastante com todo o processo de comunicação
entre os irmãos.
E mais: para que os dois irmãos pudessem se falar na manhã
desta terça-feira houve ainda um processo de preparação com o apoio do
professor Milton Freire, Coordenador da Educação do Campo da Secretaria de
Educação do Município de Humaitá. Após detalhada investigação, com o apoio da
policial civil de Fortaleza, Adriana Mesquita, e muitas ligações para Humaitá
nos últimos 40 dias, cheguei até ao professor Milton, que confirmou que a dona
Gizelia trabalha como merendeira na Secretaria de Educação e atua na Vila Nova
dos Baianos, a 9 horas de Humaitá, descendo o Rio Madeira de barco comum e umas
3 horas de voadeira 150HP. “A Gizelia trabalha com a gente. Vou entrar em
contato com uma pessoa que tem telefone lá na região e a gente combina o dia
para você ligar”, disse o professor Milton na quarta-feira, dia 1º de julho. No
domingo, dia 5, ele me ligou e pediu que eu ligasse para o número do motorista
Raimundo Marques. A essa altura, o esposo da Gizelia, Raimundo Nascimento, já
estava lá na Vila da Meditação, a 1 hora de barco da Vila Nova dos Baianos,
aguardando a minha ligação. Liguei e marquei com ele o dia do contato da esposa
dele com o irmão dela, o Basílio, em Parauapebas. Data confirmada: terça-feira,
dia 7 de julho de 2020. E assim foi feito: na hora marcada, com a presença do
repórter Marcelo Duarte, da RBATV Band, de Parauapebas, os dois irmãos se
falaram demoradamente por meio de videochamada. Foi emocionante. Choraram e
relembraram de episódios do passado e de parentes que ficaram em Chapadinha.
Agora, eles vão se falar constantemente e já até programaram um encontro em
Chapadinha para o final deste ano para, pessoalmente, poder se abraçarem de
verdade e realizar uma grande comemoração ao lado de todos os familiares e de
um filho de dona Gizelia, o Moisés daós 29 anos sem contatoA história
Tudo começou dia 20 de maio deste ano quando recebi a
seguinte mensagem – via WhatsApp – do José Basílio, morador do Bairro dos
Minérios, em Parauapebas:
“21:33, 20/05/2020: Boa noite. Eu me chamo Basílio. Eu soube
do seu belo trabalho de encontrar parentes que a gente perdeu contatos. Eu
tenho uma irmã que não tenho notícias há mais de 17 anos. A última notícia que
tivemos foi que ela estava morando em Humaitá. Foi quando ela falou com meu
irmão Samuel para receber a notícia do falecimento da nossa mãe. O nome dela é
Gizelia Maria da Conceicão de Mesquita. Ela tem quatro filhos: Moisés da
Conceição de Mesquita, Antônio Carlos, Carlos André, e Carlos Henrique. O nome
da mãe dela é Maria Domingas da Conceicão de Mesquita. E o nome do pai dela é
Milton Carmo Coelho de Mesquita. Peço sua ajuda. Desde já obrigado”. Ele disse
que conseguiu meu contato com a senhora Jailma Lopes, residente no Bairro
Cidade Jardim, em Parauapebas, cujo pai, Jaime Lopes, eu localizei em novembro
de 2019 na cidade de Pindaré (MA). A Jailma não via o pai havia 42 anos.
Voltando ao caso do Basílio, faltava a data de nascimento da
Gizelia. Pedi, mas ele não tinha esta informação básica. Depois de muita
insistência do repórter em outros contatos seguintes, ele conseguiu outros
dados e me informou que a Gizelia havia nascido em setembro de 1972 em Vargem
Grande, no Maranhão. Ficou mais fácil. Aí, pedi ajuda para a policial civil
Adriana Mesquita, em Fortaleza, que acabou localizando um cadastro em Humaitá.
Confirmou que ela nasceu em 4 de setembro de 1972, conferiu o nome da mãe e que
já havia trabalhado na prefeitura de Humaitá.
Segunda fase
A partir daí começou a segunda fase da investigação. Entrei
em contato com o jornalista Francisco Chagas, o “Chaguinha”, diretor do portal
“A Crítica de Humaitá”, que por sua vez me passou o contato de um funcionário
da prefeitura, o Mário Jorge, que me encaminhou para o secretário de
Planejamento e Administração, Júlio Aires.
Depois de alguns dias, a resposta que recebi foi que não
haviam localizado o cadastro da Gizelia. Voltei a falar com o Mário Jorge,
expliquei a situação e ele me passou o contato do professor Milton Freire,
Coordenador da Educação do Campo, que confirmou de imediato que a Gizelia
trabalha na Secretaria de Educação e está lotada como merendeira na Vila Nova
dos Baianos, a 9 horas de barco de Humaitá. E aí o resultado é este que você
leu no início desta matéria.
Este é o nono caso desvendado desde novembro de 2018, quando
descobri os familiares do ex-andarilho Gabriel Costa de Carvalho – que
circulava maltrapilho pelas ruas de Parauapebas – em Formosa (GO) e em
Brasília.
Minha missão ainda não acabou. Tenho que prosseguir com as
investigações de cerca de 20 casos para que eu possa, com a graça de Deus,
fazer novas famílias felizes.
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