
Crise na V Para
sobreviver, mulheres, adolescentes e casais - que às vezes revezam os horários
para cuidar dos filhos - chegam a vender o corpo por menos de US$ 2
Tínhamos combinado de nos encontrar às 12h no parque
Mercedes, no centro de Cúcuta, cidade colombiana próxima da fronteira com
a Venezuela.
Cheguei alguns minutos atrasada e a vi conversando com um
homem. Ela tinha me dito que viria sozinha, por isso estranhei a situação.
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A mulher começou então a caminhar, afastando-se do parque,
seguida logo atrás pelo homem.
Enviei-lhe uma mensagem de WhatsApp para avisar que estava
esperando e perguntar se estava tudo bem.
"Me dê 10 minutos, chegou um cliente", respondeu
Francesca**.
nullTalvez
também te interesse Outras variantes na forma de inserção dos migrantes na
indústria sexual do lado colombiano envolve casais.
"São heterossexuais em que ambos trabalham na
prostituição. A mulher atende os clientes de dia e o homem, à noite - dessa
forma eles conseguem se revezar para cuidas dos filhos", diz Villamizar.
Também há casos, acrescenta, em que deixam as crianças
dormindo à noite e saem juntos para trabalhar até a madrugada.
"Atendem a quem quer que se aproxime, seja homem ou
mulher", diz ele.
O objetivo é ganhar dinheiro para mandar aos familiares
na Venezuela, como fazem diversos venezuelanos que saíram do país, hoje imerso
em uma profunda crise econômica que provocou um êxodo massivo reconhecido pela
ONU, mas negado pelo governo de Nicolás Maduro.
Carolina também conhece vários casos envolvendo casais
venezuelanos. Nem sempre os maridos trabalham, ela conta, mas estão por perto.
No caso dela, seus dois filhos a acompanham. "Eles
veem que as mulheres saem com muitos homens, mas eu lhes digo que não devem
fazer isso."
Sexo sem camisinha rende mais dinheiro
As ONGs que atuam no local identificaram outra prática
recorrente entre as trabalhadoras sexuais em Cúcuta: concordar com uma relação
sem preservativo para que os clientes paguem mais.
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null.
Ela havia proposto aquele horário por ser o único momento do
dia (e da noite) em que podia fazer uma pausa para conversarmos. Mas apareceu
um cliente - e ela não podia se dar ao luxo de recusar.
O parque Mercedes é um lugar conhecido por reunir
trabalhadores sexuais.
Salvar-se como puder
O desespero causado pela crise na Venezuela e a necessidade
de encontrar uma forma de alimentar a família fizeram com que muitos
venezuelanos se vissem forçados a fazer coisas que nunca imaginariam.
Ent Muitas sabem dos riscos, ressalta Villamizar, mas dizem aceitar
porque precisam de dinheiro.
Carolina conta que uma colega que já tinha três filhos deu à
luz recentemente.
"Elas fazem isso por sobrevivência. Comem uma vez por
dia e tomam água para tentar enganar a fome. As condições em que exercem a
prostituição são desumanas", afirma uma pessoa que trabalha com imigrantes
na fronteira e que pediu para manter o anonimato.
"As venezuelanas atendem até 12 clientes por noite e
cobram muito menos. Algumas pedem entre 5.000 e 10 mil pesos por programa (US$
1,60 e US$ 3,20, respectivamente), enquanto uma colombiana cobraria 50 mil
pesos (US$ 15)", conclui.
Francesca já chegou a fazer quase 30 programas em um fim de
semana.
'Pague 5.000 pesos e coma duas venezuelanas'
Não faltam aqueles que se aproveitam do desespero dos
imigrantes venezuelanos.
"É horrível. Um dos bares da região tem o seguinte
letreiro na entrada: 'Pague 5.000 pesos e coma duas venezuelanas", diz
Álvarez, da Fundación Oasis de Amor y Paz.
"Também é comum se ouvir nas esquinas os funcionários
de bares (prostíbulos) gritando: 'Venham comer, senhores. Agora que as
venezuelanas custam pouco podemos aproveitar", acrescenta.
A maioria dos imigrantes chega com a esperança de encontrar
algum trabalho, mas não é fácil.
De acordo com o órgão oficial de estatísticas do país, o
Sistema Estadístico Nacional de Colombia, Cúcuta é a segunda cidade com maior
taxa de desemprego no território - 16,2% em setembro de 2018.
re elas, trabalhar na indústria do sexo. 'Modelos'
As webcams também são parte do negócio. Nos jornais locais
vê-se com frequência anúncios em busca de "modelos".
"É como vender o corpo, mas ninguém te toca porque é
pela internet... Para mim o mais difícil foi transar com uma mulher, porque sou
gay", conta David Contreras.
Ele diz ter concordado em se relacionar com uma mulher em
frente às câmeras porque lhe ofereceram uma boa quantidade de dinheiro, e os
colegas o pressionaram para aceitar.
"Somos quatro (trabalhando juntos), e umas 300 pessoas
nos veem. Elas pedem que você faça certas coisas, que realize fantasias que
elas têm", afirma.
Na Venezuela, ele estudava e trabalhava no tempo livre. O
que ganhava, entretanto, só dava para comprar verduras - foi quando decidiu ir
para a Colômbia tentar a sorte, mesmo sem conhecer ninguém.
"Lavei carro, trabalhei em salão de beleza e em uma
loja, mas o dinheiro não era suficiente. Nunca pensei que acabaria fazendo o
que faço, mas foi o que consegui para poder ajudar minha família", lamenta
Contreras.
Os familiares vivem próximo à fronteira, assim eles
conseguem se ver com certa regularidade.
"Nos encontramos em algum ponto e tomamos sorvete.
Depois dou-lhes dinheiro e é cada um para o seu lado."
Maus-tratos, agressões e ofensas
O avanço da prostituição tem sobrecarregado o sistema de saúde
do departamento (divisão político-administrativa da Colômbia) de Norte de
Santander, cuja capital é Cúcuta.
"Muitas mulheres têm diagnóstico de depressão
psiquiátrica e precisam de medicação", explica um membro de uma
organização que presta apoio a imigrantes e que preferiu manter o anonimato.
"Para conseguirem trabalhar, muitas consomem drogas e
chegam a passar 12 horas alcoolizadas. Elas também têm de lidar com uma
tristeza enorme, com a batalha da imigração, o desenraizamento e uma violência
que não tinham experimentado antes", acrescenta.
A venezuelanos sem recursos, é extremamente difícil ter
acesso a tratamentos médicos.
"Trabalhar na prostituição afeta muito a gente. Uma
noite, o cliente me roubou, me usou três vezes e, de manhã, disse que não me
pagaria", lembra Francesca.
"Te maltratam, te agridem, te ofendem… Uma amiga foi
estuprada e largada nua na rua."
Há ainda uma questão de saúde pública - a dificuldade de
evitar a propagação de infecções sexualmente transmissíveis, particularmente o
HIV, que, de acordo com a experiência da Fundación Censurados na região, tem se
proliferado entre os imigrantes.
"Há um ano fazíamos cinco testes de HIV por semana,
agora são 30", diz Villamizar.
Um corpo no meio da ponte
Um relatório do Instituto Nacional de Saúde da Colômbia
documenta os casos "importados" de Aids.
A maioria vem da Venezuela, e a maior concentração está na
região norte de Santander.
"Há um aumento incomum na fronteira", ressalta
Alfonso Rodríguez-Morales, coautor de um estudo sobre o impacto da crise
migratória venezuelana sobre a ocorrência de doenças infecciosas em outros
países.
Apesar do cenário, ele diz, não houve alteração significativa
no número total de casos diagnosticados anualmente na Colômbia e a maioria
continua sendo autóctone.
Por detrás das estatísticas, contudo, há uma série de
histórias dolorosas que, com frequência, não têm um final feliz.
"Vi tantas coisas difíceis…", diz Archila.
"Mas talvez o mais difícil foi ter que carregar o corpo
de um venezuelano e deixá-lo no meio do caminho da ponte Simón Bolívar (uma das
que liga Venezuela e Colômbia)".
"Ele morreu em decorrência de Aids e a família não
tinha como pagar o traslado do corpo", explica.
**Os nomes foram alterados para manter o anonimato
*Colaborou Simon Maybin.
Direito de imagemCECILIA TOMBESI/BBCImage captionFrancesca**
é mãe de três filhos: Imagem mostra mensagem que trocou com repórter da BBC,
pedindo 10 minutos para atender cliente
Histórias como a de Francesca, mãe de três filhos, têm se tornado
menos incomum.
Mulheres que se tornaram garotas de programa e organizações
que lhes oferecem ajuda calculam que, atualmente, cerca de 80% das
trabalhadoras sexuais em Cúcuta são venezuelanas.
Muitas (e muitos) estão em situação de vulnerabilidade tão
delicada que se submetem a circunstâncias extremas, diz Miguel Ángel
Villamizar, assistente social ligado à Fundación Censurados, uma ONG que presta
apoio a imigrantes venezuelanos.
Assim como para Francesca e para mais de um milhão de
venezuelanos que fugiram do país e buscaram refúgio no vizinho.
"Um dia, não aguentei mais. Meus filhos me diziam:
'Mamãe, estou com fome'". Era tanta que lhes doía o estômago. Eu não tinha
nada para dar a eles. Eu consigo aguentar, mas eles, não", diz Francesca.
Quando saiu de casa, a única coisa que havia na geladeira
eram seis ovos, farinha e um pouco de queijo.
Exploração infantil
Grupos que ajudam imigrantes em Cúcuta afirmam que houve um
aumento significativo da parcela de pessoas que oferecem serviços sexuais na
cidade.
O mais preocupante envolve menores de idade.
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